Uma síntese pela proposição de Marise Ramos
Neste post, trago uma abordagem sobre a temática do Ensino Médio Integrado a partir das perspectivas da pesquisadora Marise Ramos, reconhecida por suas contribuições no campo da educação profissional e tecnológica. A reflexão será fundamentada no artigo de sua autoria intitulado “Concepção do Ensino Médio Integrado”, no qual a autora propõe uma compreensão crítica e transformadora dessa etapa de ensino. Trago uma síntese do texto sobre as discussões de como Ramos defende a integração entre formação geral e formação profissional de maneira omnilateral, rompendo com a lógica fragmentada imposta historicamente pela divisão social do trabalho.
O Ensino Médio Integrado, segundo as ideias da pesquisadora Marise Ramos, apresenta-se como uma proposta educacional que vai além da mera justaposição entre formação geral e formação profissional. Para a autora, essa integração deve ser entendida como um processo formativo que rompe com a lógica tradicional da divisão social do trabalho, que historicamente separa os que pensam dos que executam, os que dirigem dos que operam. O ensino integrado, portanto, busca oferecer aos estudantes uma formação omnilateral, isto é, que desenvolva de forma ampla todas as dimensões do ser humano: intelectual, técnica, ética, estética e política.
Vamos entender um pouco mais através da perspectiva dos três sentidos da integração, proposta pela autora. Quando falamos em Ensino Médio Integrado, é importante entender que a palavra “integração” não tem um único significado. A pesquisadora Marise Ramos nos ajuda a enxergar três sentidos diferentes, e muito importantes, para essa ideia de integrar. De forma simplificada:
1º – Formação omnilateral: integrar todas as dimensões da vida
No primeiro sentido, a integração não fala diretamente de escola ou trabalho. Ela trata da formação completa do ser humano, em todas as áreas da vida: o trabalho, o conhecimento e a cultura. A ideia é que uma boa educação deve formar pessoas que entendam como o mundo funciona, que saibam trabalhar, que conheçam ciência e respeitem a cultura. Isso vale para qualquer nível de ensino. Aqui, integração é formar sujeitos conscientes, críticos e capazes de pensar e agir com autonomia.
2º – Educação básica e profissional não podem andar separadas
O segundo sentido já entra diretamente no debate sobre ensino médio e educação profissional. Marise Ramos mostra que, para muitos jovens da classe trabalhadora, estudar e trabalhar são coisas que acontecem ao mesmo tempo. Eles não têm o privilégio de “estudar primeiro e trabalhar depois”. Então, integrar a formação geral com a formação técnica é uma forma de garantir que esses jovens tenham acesso a um futuro melhor sem precisar escolher entre “ter um diploma” ou “ter um emprego”. Quando o ensino técnico caminha junto com o ensino médio, a escola passa a fazer muito mais sentido para esses estudantes.
3º – Conhecimentos gerais e técnicos formam um todo só
O terceiro sentido da integração mostra que não existe uma linha separando o que é “teoria” e o que é “prática”. Marise Ramos explica que conhecimentos como Física ou Português são tão importantes quanto saber consertar um microfone ou programar um sistema. Tudo está interligado! A tecnologia, por exemplo, só existe porque há ciência por trás dela. Um técnico em eletrônica precisa entender conceitos científicos profundos, e um professor precisa compreender como o conhecimento técnico impacta a vida das pessoas. Quando a gente pensa assim, fica claro que não dá pra dividir as disciplinas em “importantes” e “menos importantes”. Tudo se conecta.
Através desta concepção dos três sentidos da integração, a proposta do Ensino Médio Integrado se torna muito mais do que uma simples junção de “disciplinas” ou “matérias”. Ela passa a ser uma maneira de formar pessoas mais completas, preparadas para o mundo e com mais chances de transformar a própria realidade.

Essa concepção propõe a articulação entre os conhecimentos científicos e saberes, promovendo uma formação que permita ao estudante compreender a realidade de forma crítica e atuar de forma transformadora.
Marise Ramos defende que é por meio dessa articulação que se supera a dicotomia entre o “saber fazer” e o “saber pensar”, formando sujeitos capazes de exercer plenamente sua cidadania, com consciência de seus direitos, deveres e do papel que ocupam na sociedade e no mundo do trabalho.
“O esquema abaixo quer sugerir que qualquer processo de produção e/ou fenômeno social possui múltiplas dimensões e a sua compreensão exige que nós o vejamos como totalidade.”

Além disso, o Ensino Médio Integrado não se limita a preparar o jovem apenas para o mercado, mas para a vida em sua totalidade. Ao integrar formação básica e técnica, essa proposta questiona o modelo fragmentado de ensino e reafirma a escola como um espaço de formação humana integral. Trata-se de reconhecer o estudante como sujeito histórico e social, capaz de construir conhecimentos, propor soluções e intervir em seu contexto com autonomia e criticidade.
Portanto, a perspectiva omnilateral defendida por Marise Ramos nos convida a pensar a educação como um direito de formação plena, capaz de promover a emancipação dos indivíduos frente aos limites impostos pela organização social do trabalho. O Ensino Médio Integrado, quando orientado por essa visão, não apenas qualifica para o trabalho, mas dignifica o ser humano em sua totalidade, ressignificando a escola como um espaço de superação das desigualdades e construção de um projeto de sociedade mais justo e igualitário.
Entenda um pouco mais pela própria Marise Ramos
Palestra Ensino Médio Integrado: da conceituação à operacionalização, durante o I Seminário Intercampi de Formação Pedagógica para docentes e gestores da Educação Profissional – Tema: “Ensino Médio Integrado: da conceituação à operacionalização”
Leituras de Referência
RAMOS, M. N.. Concepção do Ensino Médio Integrado. In: ARAÚJO, Ronaldo; TEODORO, Elinilze. (Org.). Ensino Médio Integrado no Pará como Política Pública. Belém: SEDUC-PA, 2009, v. , p. 144-182