Trabalho, integração, politecnia e ominilateralidade

Já parou pra pensar o que está por trás da proposta dos Institutos Federais de Educação? Trago nesta postagem, quatro conceitos que fundamentam a missão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica: trabalho, integração, politecnia e omnilateralidade. Essas ideias estão na base de um modelo educacional que busca formar cidadãos críticos, criativos e preparados para transformar a sociedade. Vamos entender como tudo isso se conecta!

Base simbólica dos Institutos Federais

Os Institutos Federais não são apenas escolas técnicas. Eles foram criados com uma proposta educacional inovadora: oferecer uma formação completa, que articule o ensino básico, técnico e superior, com uma visão humanizada e voltada para o bem comum. São instituições multicampi, pluricurriculares e especialistas em educação profissional e tecnológica. Toda essa estrutura tem como referência ideias que vêm da teoria crítica da educação — especialmente aquelas ligadas ao trabalho, à integração, à politecnia e à omnilateralidade.

Trabalho: identidade e transformação

Para o sociólogo Ricardo Antunes, o trabalho é parte essencial do que nos torna humanos. É por meio dele que construímos nossa identidade e nossos valores. No entanto, no sistema capitalista, o trabalho muitas vezes é negado ou precarizado, o que afeta diretamente a vida das pessoas — com perda de autonomia, insegurança e aumento das desigualdades sociais. Pensar o trabalho como um direito humano e como prática de transformação é o primeiro passo para uma educação que liberte e não apenas forme para o mercado.

Integração: unir saberes para superar a fragmentação

A pesquisadora Maria Ciavatta defende que a educação deve ser pensada como um todo. Isso significa que ensino médio e técnico não devem ser separados. Quando o conhecimento se integra, a formação profissional deixa de ser vista como algo menor e passa a ter papel central na construção de uma sociedade mais justa. Integrar é superar a antiga divisão entre “quem pensa” e “quem executa”. É oferecer uma formação que prepare para o trabalho e para a vida em sociedade, ao mesmo tempo.

Politecnia: formar para entender o mundo

Segundo Demerval Saviani, a politecnia não é apenas sobre aprender a fazer, mas sobre entender por que se faz. Ela parte da ideia de que o estudante deve dominar os fundamentos do conhecimento — não apenas aprender uma função. Isso permite que ele compreenda os processos de produção, as relações sociais e o impacto do trabalho no mundo. A formação politécnica promove um desenvolvimento amplo, que prepara o estudante para atuar com autonomia, criticidade e capacidade de adaptação.

Diferente do que era proposto anteriormente, aprendizado de técnicas específicas, como uma certa forma de adestramento, ou seja, Saviani traz a integração de conhecimentos e habilidades de diferentes áreas. Veja os excertos de Saviani sobre politecnia:

não se trata de um trabalhador adestrado para executar com perfeição determinada tarefa e que se encaixe no mercado de trabalho para desenvolver aquele tipo de habilidade;
trata-se de propiciar-lhe um desenvolvimento multilateral, um desenvolvimento que abarca todos os ângulos da prática produtiva na medida em que ele domina aqueles princípios que estão na base da organização da produção moderna.

(Saviani, 2007, p 140).

Omnilateralidade: desenvolver todas as dimensões do ser humano

A omnilateralidade, conceito trazido por autores como Manacorda, fala sobre formar pessoas de maneira completa. Significa criar oportunidades para que todos possam desenvolver suas habilidades físicas, intelectuais, artísticas, sociais e emocionais. Em vez de limitar os indivíduos a funções específicas no mercado, essa proposta aposta na liberdade, na criatividade e no desenvolvimento pleno das capacidades humanas. Ou seja, formar cidadãos capazes de escolher seus caminhos de forma consciente e com liberdade.

Tomado por estas bases, a partir de uma nova concepção sobre a função da educação pública, com formação a partir das estruturas dos modelos que existiam anteriormente, em 2008, foi sancionada a Lei n. 11.892 de 29 de dezembro de 2008. Esta por sua vez, institui a criação da Rede Federal de Educação Científica e Tecnológica com os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia e o propósito de ampliar e democratizar o acesso à educação.

Em Dezembro de 2023 o Ministério da Educação produziu um documentário para celebrar os 15 anos dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 29 de dezembro de 2008.

Para concluir, é importante destacar que os Institutos Federais representam uma conquista significativa da educação pública brasileira. Com base nos princípios do trabalho como prática social, da integração dos saberes, da formação politécnica e do desenvolvimento omnilateral, essas instituições têm transformado vidas e territórios ao promover uma educação de qualidade, crítica e socialmente referenciada.

Leituras de Referência

Brasil. Ministério da Educação. Centenário da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica. Brasília, 2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/centenario/historico_educacao_profissional.pdf Acesso em: 03 de jul. 2024.

ANTUNES, R.. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2 ed. São Paulo/SP: Boitempo, 2009.

CIAVATTA, M.. O Ensino Integrado, a Politecnia e a Educação Omnilateral. Por Que Lutamos?. Trabalho & Educação, Belo Horizonte, v. 23, n. 1, p. 187–205, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/trabedu/article/view/9303 Acesso em: 04 ago. 2024.

SAVIANI, D.. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 34, p. 152–165, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/wBnPGNkvstzMTLYkmXdrkWP# Acesso em: Acesso em: 30 de jun. 2024

MANACORDA, M. A.. Il marxismo e l’educazione. Roma: Armando Armando, 1964.

BRASIL. Lei n.º 11.892, de 29 de dezembro. Institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, e dá outras providências. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11892.htm Acesso em: 04 de jul. 2024.